Muros de pedra

Sempre que vou à minha terra gosto de andar por entre muros de pedra, de preferência sobre terra batida, mas já não há muitos como outrora, estão quase todos deitados abaixo ou, pior ainda, seguros a cimento. Sempre que posso vou ver os muros, que o meu Avô Fernando arranjava, estão abaulados, com pedaços caídos porque nunca mais lhes afagaram as pedras e as sobrepuseram com a paciência que só o tempo de antigamente permitia. Fico satisfeito de ninguém lhes ter mexido! Pelo menos, como adorno, apenas se vêem os líquenes cor-de-laranja em vez de argamassa cinzenta.

A pedra do muro da entrada, onde o meu bisavô Veríssimo se sentava, já lá não está. Infelizmente alguém, ignorando que aquela pedra virada a sul nos aquecia nos dias soalheiros de Inverno, arrancou-a enquanto alcatroavam a rua do Farol… maldito alcatrão que tomou conta de todos aqueles caminhos de pedra!

As bocas-de-lobo já floriram entre os calcários mas para mim serão sempre os coelhinhos. Era assim que me pareciam aquelas flores, além disso na casa da minha Avó Angelina havia coelhos e lobos nunca os vi! Bem espreito por cima do muro, para ver se vejo as ginjeiras, mas não consigo. Talvez ainda lá estejam junto ao muro oeste do casal, e a florir, em Junho encherão a barriga aos pássaros… pena eu não as poder comer como fazia nos intervalos dos momentos em que ia à figueira que nos dava figos pelo S. João.

Para minha alegria salvaram-se as silvas, que crescem contra os muros pelo lado de fora, ao menos isso, deixaram-me os espinhos! Das flores dos silvados já nasceu fruto, ainda vermelho e acre, mas vão amadurecer e no Verão que aí vem vou comer amoras nos meus passeios. Sim, sei que vou comê-las, porque ainda o Verão passado as comi… é que os meninos de agora preferem as gomas e já não colhem, com ar guloso, as amoras negras como eu fazia. E eu, enquanto galgo passos em direcção ao Cabo Carvoeiro, vou murmurando em surdina: Isso! Comam gomas! Quase que dá para ouvir a minha prima Gina, num som com quase quarenta anos, “Comeste amoras? Vou dizer ao teu pai que já namoras…”.

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~ por Ricardo Pimentel em Abril 7, 2010.

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